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noutras línguas

Eu queria falar outras línguas beijar-te com todas elas Queria dizer que te quero em castelhano em vietnamita à distância de improviso em sotaques noutras coordenadas Ou falar-te só com os olhos que perto nunca fosse perto demais queria entrelaçar pestanas deixar entrar grãos de areia e guiar-me de visão turva pelo mapa de tinta marcado na tua pele E eu que não sou de ceder "E de um coração leviano que nunca será de ninguém" queria matar a sede de uma adolescência vivida a procurar-te noutros corpos depois de te conhecer de outras vidas Queria perder-te de vista depois de te encontrar numa casa de janelas grandes vista para o futuro para um cão e duas cadeiras à beira mar Queria não ter de falar noutra língua que entendesses em português todos os silêncios todas as pausas.      tudo            o que ficou                por beijar.

22:22

Apagavam-se as luzes à minha passagem. Levantei o pulso para confirmar: 22:22. Bruja . E a cada passo apagava mais um poste de eletricidade. Caminhava num tapete de folhas húmidas, os pés a deslizar na passagem do inverno, das estações e do tempo. Quase quinze anos depois e à memória trouxe o melhor elogio que nenhum outro conseguiu vencer. Por ti subia aos postes e apagava as lâmpadas . Nunca soube bem o que significava, quis desde aí acreditar que faria espaço para ver mais estrelas. E pedir o mesmo desejo sem fim, que até aqui ainda mantenho em segredo. Mais um passo depois do outro e mais um poste que murchava. E o rasto de solidão que me perseguia como se pudesse guardar sozinha a luminosidade da rua inteira.  Caminhava com a pressa de chegar a casa e deixar para trás o ar da rua, a luz da lua. Crescente, mentirosa deste lado do mundo, pouco disposta a cobrir crimes de escuridão urbana e mental. Casa como meta e as prioridades bem definidas: acender as velas todas, não fosse a...

O primeiro mergulho do ano

Dizem que a primeira pessoa em quem pensamos quando vemos o mar é aquela por quem estamos apaixonados. Enchi os pulmões de ar e percorri o areal em apneia até sentir o conforto da areia molhada. Deixei as ondas taparem-me os pés e fechei os olhos com força. Para deixar de te ver onde nunca estás. Como se adiantasse. Também és tu quem me atordoa em sonhos quando fecho os olhos à noite.  A água fria a percorrer-me o corpo, a sentir-te em cada onda. A sentir-te até ao horizonte. Sentir-te no último raio de sol. Sentir-te no reflexo da lua cheia. Deixei que o primeiro mergulho do ano me limpasse a alma, lavasse as memórias, diluísse as lágrimas e esquecesse as saudades. Tenho grãos de areia a preencher-me as ausências dos dias em que não me levaste a ver o pôr-do-sol. Lembra-te sempre de mim quando o céu estiver cor-de-rosa e grita por mim quando as ondas baterem na areia. O meu nome tem sabor a água salgada pela tua voz, como se me retribuísses mais do que silêncios. Um dia, prim...

Quarto minguante

Sunday Morning era a música que tocava em repeat na minha cabeça na noite de quarta-feira do verão em que te conheci. Aí ainda não sabia que a banda sonora da tua vida podia ser a da minha também. Mentia se dissesse que atentava na letra: o meu corpo vibrava mais alto ao ouvir-te falar, como rimas nascidas para serem perfeitamente alinhadas numa batida de hip hop. Embalada por prévios copos de vinho tinto, falei-te mais depressa do que a ansiedade me faz falar; sem filtros, como se pudesse confiar-te todas as minhas mágoas. Não me lembro de tudo o que disseste mas senti tudo o que a tua voz rouca não disse. Todas as verdades do teu íntimo mais profundo como se não fossemos dois desconhecidos conectados. A minha alma tentava soltar-se do corpo e agarrar-se à tua como se lhe pertencesse, ou a conhecesse de outra vida, transcendendo uma realidade que acabava de conhecer. E sem contar os dias, nasceu até morrer infinitamente no pôr-do-sol das tuas palavras. Até apodrecerem. Como se o bri...

A noite em que a chuva enlouqueceu

Louca. Chamaram-me uma noite. Por incrível que não pareça Foi dos elogios mais bonitos que já me fizeram Na vida. Nunca mais me esqueci, Como se houvesse mais que cinco letras por decorar, De uma louca que não veio sozinha E trouxe uma puta à pendura De mãos dadas Entre dentes E que até assim soou poético E lindo. Ecoavam nas ruas de uma casa cheia De gente vazia Como tu E eu E um elogio Trazido ao colo de uma ofensa frágil Que de tão simples Tinha tudo de bonita Como a noite À chuva Mas que lhe faltavam as forças para carregar, E tanto que lhe tremiam os joelhos De ter um sorriso como resposta. Afinal, é sempre mais fácil apontar os dedos aos loucos Que compreendê-los. Enquanto choviam ódios de uma louca de riso, Uma louca a rir-se, Desciam-lhe dos olhos loucuras líquidas  De rancor disfarçado de amor ou de outra coisa qualquer Sem saber distinguir Entre lágrimas e gotas E pingas de suores frios Tudo ao mesmo tem...