Quarto minguante

Sunday Morning era a música que tocava em repeat na minha cabeça na noite de quarta-feira do verão em que te conheci. Aí ainda não sabia que a banda sonora da tua vida podia ser a da minha também. Mentia se dissesse que atentava na letra: o meu corpo vibrava mais alto ao ouvir-te falar, como rimas nascidas para serem perfeitamente alinhadas numa batida de hip hop.
Embalada por prévios copos de vinho tinto, falei-te mais depressa do que a ansiedade me faz falar; sem filtros, como se pudesse confiar-te todas as minhas mágoas. Não me lembro de tudo o que disseste mas senti tudo o que a tua voz rouca não disse. Todas as verdades do teu íntimo mais profundo como se não fossemos dois desconhecidos conectados. A minha alma tentava soltar-se do corpo e agarrar-se à tua como se lhe pertencesse, ou a conhecesse de outra vida, transcendendo uma realidade que acabava de conhecer.
E sem contar os dias, nasceu até morrer infinitamente no pôr-do-sol das tuas palavras. Até apodrecerem. Como se o brilho da lua num mar de prata não significasse o óbvio.
Mas eu vi as estrelas a cair nos teus olhos, eu vi-as a cair daqui. 
Apago-lhes o brilho agora para que os meus olhos voltem a abrir amanhã.

Quis escrever-te tantas vezes. Mas tantas vezes foi demasiado doloroso tentar pensar-te; mais ainda tentar escrever-te sobre as nossas vibrações desalinhadas.
Um dia a lua há de estar em quarto minguante outra vez. E, um dia, pensar-te num futuro há de decrescer até deixar de doer.
Até já.

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