Delírios num velório
Nunca tinha visto um morto. Minto. Nunca tinha visto um corpo sem vida, mortos passam vivos pela minha a toda a hora. E pela deles também. Sombras que se arrastam pelos dias sem réstia de esperança de em algum renascerem. Vão esperando que chegue a data em que expiram. Mas este volume que vejo é um corpo que passou da validade. Acabou. Chegou ao limite. Daqui, de onde estou, reconheço-lhe as formas. É só um lençol que separa os dois mundos – como se fosse uma separação assim tão simples; a branco, bordada. Dou por mim a esperar detetar algum movimento, e a esperar que isso não aconteça. Há corajosos o suficiente para lhe destaparem a cor da pele; no fundo querem certificar-se de que a minha esperança é em vão. Não sei se entendo bem essa curiosidade mórbida que até eu tenho. Já o olhei fixamente e se me perguntassem não hesitava que estaria a dormir. E está. Só que dorme com olhos que nunca mais irão abrir. Não sei lidar com a morte – ando há 21 anos a aprender a lidar com a ...