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A mostrar mensagens de 2014

Assassinato mental

Levantou-se lentamente como que a recuperar o fôlego perdido. Não que tivesse perdido algum e muito menos o tivesse que recuperar, visto que jazia no tapete do quarto desde que tivera mão na sua consciência. Pelo menos durante esse tempo inconsciente não tinha que se dar ao trabalho de pensar demais - ou assim queria acreditar. A incerteza de que já acordara de um sonho lúcido esbatia-se sobre ela. De pé diante da janela do quarto atravessou o olhar sobre o inevitável reflexo, que ainda permanecia o mesmo desde a última vez que se lembrava, e olhou a rua como se fosse a primeira vez e não a soubesse de cor. Era realmente a primeira vez que a olhava. A primeira vez naquele dia. Não sabia se amanhecia ou anoitecia e parecia-lhe a cidade parada no tempo e no espaço, sem que o mais pequeno sinal de vida pudesse ser vislumbrado do alto do seu metro e setenta daquele décimo segundo andar. Quanto tempo teria passado desde que perdera os sentidos aos pés da cama? Sentou-se no chão, no mesmo l...

E mais um copo de vinho

E mais um copo de vinho. E o batom no copo. Vermelho sangue, como não poderia deixar de ser. Como sempre, para se sentir viva e em vida. O vermelho do sangue do batom do vinho. Os lábios de sangue já se mexem sozinhos. A voz, que falha tantas vezes, soa perfeita no teu nome. E mais um copo de vinho para esquecer esse amor. O álcool do vinho de sangue faz sempre falar o coração. Não que te amasse, ou que te amasse tão pouco como gostaria, mas os lábios dela já só sabem o teu nome por esta altura. Já tremem as horas vãs que passam como se estivesse à tua espera. E mais um copo de vinho para acertar os relógios. E os lábios desenhados encarnados no vidro quando queriam estar moldados ao teu pescoço. Tens frases na cintura mas ela tem amor no vermelho dos lábios que é do mesmo vermelho do teu coração. Agarra o copo agora com as duas mãos que para lhe escapar entre os dedos já bastaste tu. Ao balcão de um bar – nem sei muito bem onde – cruza uma perna por cima da outra e faz sinal ao empre...

Bons sonhos.

Eu já nem sonho – tenho delírios. E nem se podia dizer que era sonhar de noite para contar de dia que as horas passam e eu, de olhos abertos, sinto-me a passar por ti. Em tempos foste tu quem passou, mas agora são águas passadas. Mas ouve-me: se puderes, caso o possas ou chegues a poder algum dia, passa por aqui. Ao invés de ser sempre a mesma passagem, invertamos os passos. Já estou do avesso há uns anos, ou talvez o tenha sido assim a vida toda.  As portam fecham-se-me no nariz a cada minuto. Sempre fui teimosa que dói, nem sei se é defeito ou feitio. E eu que insisto em continuar a tentar abri-las mesmo quando não têm abertura - nem possível, nem impossível, não a têm simplesmente. Ainda estou para saber se são as fechaduras que têm mau feitio ou se são as minhas chaves que estão estragadas. Podres. Ou não prestam. Ou então sou só eu. Que não presto. Que estou podre. Estragada. Ou que tenho mau feitio. Se bem que este último me parece inquestionável aos olhos até de quem não ...