22:22

Apagavam-se as luzes à minha passagem. Levantei o pulso para confirmar: 22:22. Bruja.
E a cada passo apagava mais um poste de eletricidade.
Caminhava num tapete de folhas húmidas, os pés a deslizar na passagem do inverno, das estações e do tempo. Quase quinze anos depois e à memória trouxe o melhor elogio que nenhum outro conseguiu vencer. Por ti subia aos postes e apagava as lâmpadas. Nunca soube bem o que significava, quis desde aí acreditar que faria espaço para ver mais estrelas. E pedir o mesmo desejo sem fim, que até aqui ainda mantenho em segredo.
Mais um passo depois do outro e mais um poste que murchava. E o rasto de solidão que me perseguia como se pudesse guardar sozinha a luminosidade da rua inteira. 
Caminhava com a pressa de chegar a casa e deixar para trás o ar da rua, a luz da lua. Crescente, mentirosa deste lado do mundo, pouco disposta a cobrir crimes de escuridão urbana e mental.
Casa como meta e as prioridades bem definidas: acender as velas todas, não fosse a cidade suspeitar quem seria a causa da ausência de luz pública.
Que ninguém notasse. Que continuasse invisível neste caminho fúnebre, que me espelhasse até aos ossos.
Caminhava na penumbra sem medo de estar sozinha. Apertava a mão a pensamentos escuros de pouco fiar. Gritavam todos ao mesmo tempo. 
Um de cada vez. Um passo de cada vez. 

O deslizar do fósforo na caixa. A chama que dançava entre os dedos. Queimava de dentro para fora, finalmente a deixar arder. 

Agora podia respirar.


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