E se

As linhas já estão gastas. Gastas de tantos corações apertados que já nem cabiam em si sós. Cansadas de tantas palavras vazias como amo-tes descabidos que se escreveram sozinhos em retas paralelas que se tornaram curvas. Vou começar a desabafar para as paredes. Até porque, afinal de contas, não são elas que têm a fama de ter ouvidos? Oiçam-me bem, só desta vez. Quero gritar o que me ficou entalado na garganta. Fá-lo-ei, ainda que não possa. Ou que não deva. Mas o poder e o dever são conceitos relativos. Como o certo e o errado. Ainda para mais quando o contexto se pendura em paredes ocas. 
Mas vou gritar o que eu quiser - sempre fiz o que quis. Não posso culpar mais ninguém pelas coordenadas em que os meus pés assentam neste momento. Gritos em silêncio. Para que me oiçam bem. Para que percebam de uma vez que o que acaba por fazer mais comichão são os “e se” que perdemos no caminho. O resto é ignóbil. Como o passado. Pretéritos (im)perfeitos. Vou riscar estas paredes de coisas que já não voltam. E pensar que só um desvio podia ter mudado a nossa rota para sempre. E nunca vais deixar de carregar às costas o peso infinito do percurso que não mudaste, das palavras que não disseste, do beijo que não roubaste. A parede a que gritas agora podia estar do outro lado do mundo. Liberta-te dessas cordas que te prendem as mãos. Queres saber uma coisa? Ainda vais a tempo. Todo o tempo do mundo - não para mudar, mas - para inverteres as rotas que seguiste até aqui. Foi assim que um dia descobrimos o Brasil.

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