Assassinato mental
Levantou-se lentamente como que a
recuperar o fôlego perdido. Não que tivesse perdido algum e muito menos o
tivesse que recuperar, visto que jazia no tapete do quarto desde que tivera mão
na sua consciência. Pelo menos durante esse tempo inconsciente não tinha que se dar ao trabalho de pensar demais - ou assim queria acreditar. A incerteza de que já acordara de um sonho lúcido
esbatia-se sobre ela. De pé diante da janela do quarto atravessou o olhar sobre o inevitável reflexo, que ainda permanecia o mesmo desde a última vez que se lembrava, e olhou a rua como se fosse a primeira vez e não a soubesse de cor. Era realmente a primeira
vez que a olhava. A primeira vez naquele dia. Não sabia se amanhecia ou
anoitecia e parecia-lhe a cidade parada no tempo e no espaço, sem que o mais
pequeno sinal de vida pudesse ser vislumbrado do alto do seu metro e setenta
daquele décimo segundo andar. Quanto tempo teria passado desde que perdera os
sentidos aos pés da cama? Sentou-se no chão, no mesmo lugar de onde se tinha
levantado momentos antes. E chorou. Primeiro uma lágrima tímida - a
sociedade não aceita bem as lágrimas dos adultos que não têm uma tragédia como
explicação. Mas que se lixasse a sociedade, chorou como se nunca mais fosse
parar, com a sua própria tragédia pessoal a servir de desculpa. E sobre ela se
apoderou a mais pura sensação de impotência que alguma vez pudera sentir ou
imaginar sequer. E de fracasso logo a seguir. Olhou o relógio de pulso parado
nas dez e treze. Foi tempo suficiente para que se desse conta da camisa manchada
de sangue que não sabia a quem pertencia – na verdade, nem a camisa nem o sangue. Uns segundos lhe
bastaram para que reconhecesse a cor cobarde que emanava o sangue que lhe
tingia a roupa de beijos de batom. Era o seu próprio sangue, não havia que
enganar. Como se não se sentisse fracassada o suficiente, sentiu repulsa de si
própria. Não que em pensamento não tivesse já disparado tiros contra mais do
que os que pretendia admitir, mas fazê-lo contra si própria fê-la rejeitar o
corpo em que habitava. Ou a mente de que era prisioneira. Como se matar os
próprios pensamentos a libertasse de si própria. Como se a vida – ou a ideia
que temos dela – se desse ao luxo de se permitir ser assim tão simples. Ainda
que quisesse fugir da sua mente, a essência levá-la-ia novamente ao ponto de
partida. Inútil e egoísta pensar que a mudança é possível em seres tão fracos
como os humanos. Deixou cair a cabeça de novo no chão. Fechou os olhos e nasceu
de novo. Ou assim desejava que tivesse sido.
TOOOP
ResponderEliminar