Delírios num velório

Nunca tinha visto um morto. Minto. Nunca tinha visto um corpo sem vida, mortos passam vivos pela minha a toda a hora. E pela deles também. Sombras que se arrastam pelos dias sem réstia de esperança de em algum renascerem. Vão esperando que chegue a data em que expiram. 
Mas este volume que vejo é um corpo que passou da validade. Acabou. Chegou ao limite. Daqui, de onde estou, reconheço-lhe as formas. É só um lençol que separa os dois mundos – como se fosse uma separação assim tão simples; a branco, bordada. Dou por mim a esperar detetar algum movimento, e a esperar que isso não aconteça. Há corajosos o suficiente para lhe destaparem a cor da pele; no fundo querem certificar-se de que a minha esperança é em vão. Não sei se entendo bem essa curiosidade mórbida que até eu tenho. Já o olhei fixamente e se me perguntassem não hesitava que estaria a dormir. E está. Só que dorme com olhos que nunca mais irão abrir.
Não sei lidar com a morte – ando há 21 anos a aprender a lidar com a vida. Mas sei lidar menos ainda com o que a morte provoca nos vivos. Tantos anos a ver filmes e nunca pode haver preparação suficiente. Quem vai já não sente dor, leva as lágrimas de quem fica. Chegamos a chorar e, ao partir, quem chora são os outros… Irónico. Como a vida. Ou a morte.
Não é por acaso que passamos, e muito menos que ficamos. Ninguém sabe onde termina o caminho. Depois de o corpo chegar ao limite, depois de cair na (e por) terra, depois de ser pó e memórias. Não há espaço para todos aqui. Seria insuportável se houvesse. Revezamos-nos para que tenhamos todos direito a respirar este ar que já não é muito. Até ao dia. Até ao dia em que o corpo cede. Dizem que, no momento em que alguém morre, o corpo passa a pesar menos 21 gramas do que em vida. Que 21 gramas é o peso exato da alma. Não há garantias de que o corpo e o espírito tenham exatamente a mesma duração. O corpo apaga-se mas a alma é infinita enquanto nos lembrarmos dela.


(Em memória do meu avô António. 02/01/2015)

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