A noite em que a chuva enlouqueceu

Louca. Chamaram-me uma noite.
Por incrível que não pareça
Foi dos elogios mais bonitos que já me fizeram
Na vida.
Nunca mais me esqueci,
Como se houvesse mais que cinco letras por decorar,
De uma louca que não veio sozinha
E trouxe uma puta à pendura
De mãos dadas
Entre dentes
E que até assim soou poético
E lindo.
Ecoavam nas ruas de uma casa cheia
De gente vazia
Como tu
E eu
E um elogio
Trazido ao colo de uma ofensa frágil
Que de tão simples
Tinha tudo de bonita
Como a noite
À chuva
Mas que lhe faltavam as forças para carregar,
E tanto que lhe tremiam os joelhos
De ter um sorriso como resposta.
Afinal, é sempre mais fácil apontar os dedos aos loucos
Que compreendê-los.
Enquanto choviam ódios de uma louca de riso,
Uma louca a rir-se,
Desciam-lhe dos olhos loucuras líquidas 
De rancor disfarçado de amor ou de outra coisa qualquer
Sem saber distinguir
Entre lágrimas e gotas
E pingas de suores frios
Tudo ao mesmo tempo
A descerem cara a baixo
Rua a cima.
Uma luta pessoal a dois
A todos
E quanto mais ela se ria
Mais confuso tu ficavas
A admirar-lhe a loucura
Como se fosse a última noite da vida.
E tanto encolhia os ombros
Como se ria
Tanto

Como se fosse louca.

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