Bons sonhos.
Eu
já nem sonho – tenho delírios. E nem se podia dizer que era sonhar de noite
para contar de dia que as horas passam e eu, de olhos abertos, sinto-me a
passar por ti. Em tempos foste tu quem passou, mas agora são águas passadas. Mas
ouve-me: se puderes, caso o possas ou chegues a poder algum dia, passa por
aqui. Ao invés de ser sempre a mesma passagem, invertamos os passos. Já estou
do avesso há uns anos, ou talvez o tenha sido assim a vida toda.
As portam
fecham-se-me no nariz a cada minuto. Sempre fui teimosa que dói, nem sei se é
defeito ou feitio. E eu que insisto em continuar a tentar abri-las mesmo quando
não têm abertura - nem possível, nem impossível, não a têm simplesmente. Ainda
estou para saber se são as fechaduras que têm mau feitio ou se são as minhas
chaves que estão estragadas. Podres. Ou não prestam. Ou então sou só eu. Que não
presto. Que estou podre. Estragada. Ou que tenho mau feitio. Se bem que este último
me parece inquestionável aos olhos até de quem não sente.
E que penso demais no
sentido de coisas que não o têm. O pensamento tem mais força que a realidade física
a que nos subordinamos inevitavelmente. Eu explico-te: é que te matei tantas
vezes que se tornaram vezes sem conta. E olha só… ainda aí andas. Estupidez a
tua, seu ignorante feliz. Mal sabes tu quantas vidas poderias ter. Aqui, nestes
pensamentos nus e crus, deambulas cadavérico. Ganha vergonha e retira-te. Já nem
te quero pensar com medo de querer matar-te só mais outra vez. Desaparece, já
estou farta de sonhar contigo.
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