E mais um copo de vinho

E mais um copo de vinho. E o batom no copo. Vermelho sangue, como não poderia deixar de ser. Como sempre, para se sentir viva e em vida. O vermelho do sangue do batom do vinho. Os lábios de sangue já se mexem sozinhos. A voz, que falha tantas vezes, soa perfeita no teu nome. E mais um copo de vinho para esquecer esse amor. O álcool do vinho de sangue faz sempre falar o coração. Não que te amasse, ou que te amasse tão pouco como gostaria, mas os lábios dela já só sabem o teu nome por esta altura. Já tremem as horas vãs que passam como se estivesse à tua espera. E mais um copo de vinho para acertar os relógios. E os lábios desenhados encarnados no vidro quando queriam estar moldados ao teu pescoço. Tens frases na cintura mas ela tem amor no vermelho dos lábios que é do mesmo vermelho do teu coração. Agarra o copo agora com as duas mãos que para lhe escapar entre os dedos já bastaste tu. Ao balcão de um bar – nem sei muito bem onde – cruza uma perna por cima da outra e faz sinal ao empregado que lhe sirva mais um do mesmo enquanto dá o trago que mata o copo que tem nas mãos. E mais um copo meio cheio que nesta altura da vida é muito mais meio vazio. Que a outra metade podias ser tu. Degolava-te friamente e enchia o que faltava. Sorriu com a inocente maldade indecifrável de quem não tenta esconder que a imagem até que lhe agradou. Os lábios finos de vermelho a sorrir contigo a perder a cabeça. Não que fosse grande novidade, em tempos viu-te em pior estado. Agarra o copo com dois dedos da mão direita. Alguém grita ao fundo do bar que a mão em questão é penalti. Como se ela não soubesse. Sem se virar para ver de onde vem a voz, obedece. Estás no fim. E o vermelho dos lábios dela no copo vazio em vez de no teu coração de vidro. E o fim da garrafa.

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